MÍDIA:
AJUDA OU ATRAPALHA A FAMÍLIA ENTENDER OS EFEITOS DA DEPENDÊNCIA
QUÍMICA?
Atualmente estamos passando por um momento novo em relação
os meios de comunicação, pois nunca se falou tanto de álcool
e drogas como agora.
Certamente
a novela O Clone tem contribuído e muito para essa
questão. Assumir a Dependência Química, como um assunto
sério e complexo, a ser tratado e discutido, sem dúvida
expressa um primeiro passo.
Sabemos
que a Dependência Química é um problema presente em
inúmeras famílias, entre ricos e pobres, como a própria
novela vem retratando. Mas há certas questões importantes
a serem esclarecidas:
Primeiramente,
devemos levar em conta que a mídia atinge um número alto
de pessoas, e por este aspecto podemos considerar que a intenção
de abordar tal assunto, já é favorável e benéfico
para toda sociedade.
Mas apenas transmitir o recado que a Dependência Química
é um assunto sério resolve.
Segundo
a literatura, a mídia pode influenciar positivamente pessoas
que ainda não experimentaram algum tipo de droga, ou aquelas
que estão fazendo uso nocivo ou abuso de alguma substância.
No entanto não garante melhora as pessoas que já são
usuárias, ou seja, até onde se sabe, não as
leva a buscar tratamento.
Por um lado é extremamente importante, podermos hoje, assistir
uma novela que nos alerta das conseqüências que a droga
ou o álcool causam dentro de uma família, e possivelmente
por ser um meio de comunicação que alcança
uma grande massa. Porém, a experiência que clínica
nos mostra, além dos resultados de pesquisas, é que
nem todos filhos de pais separados serão um dia usuários
de droga. Refiro-me as duas famílias em destaque da novela,
que exemplificam a situação do casal como um agravante
na educação dos pais. De fato a separação
de pais é um fator de risco, que significa ser sim um dos
agravantes para levar um filho a procurar a droga como resolução
do problema, mas não se pode afirmar que este fator é
a única causa.
Muitas perguntas são freqüentes quando um pai descobre que
seu filho esta usando drogas: Como isso aconteceu? De quem é a
culpa? Ele tem tudo, isso é falta de vergonha na cara?! E para
encontrar as respostas temos que inicialmente olharmos para história
da família, como ela esta organizada, quais acontecimentos foram
presentes no crescimento do filho que talvez possam ter sido traumáticos;
Como é o grupo de amigo desses jovens; O rendimento escolar, como
anda, se há outros dependentes na família e etc... Tais
aspectos seriam o que chamamos de fatores de risco, e quanto mais fatores
estiverem presentes na vida de um jovem, mais chances ele terá
de iniciar um uso de droga ou álcool. Além do fator curiosidade
que também é relevante para uma pessoa experimentar.
Outra
questão importante a ser levantada, é que muitas vezes,
tanto na novela, como em filmes, por exemplo, não fica claro o
processo da dependência. Quero dizer que nem todas as pessoas que
experimentaram um baseado, ou até mesmo tiveram um porre, se tornaram
dependentes. Podemos definir uso como qualquer consumo de substância
(experimental, esporádico ou episódico), abuso ou uso nocivo
como sendo um consumo de substâncias que está associado a
algum prejuízo (quer em termos biológicos, psicológicos
ou sociais) e por fim, dependência como o consumo sem controle,
geralmente associado a problemas sérios para o usuário.
Desta forma poderíamos pensar em uso seqüencial, continuum,
no qual progressivamente determinadas pessoas iniciariam com o uso, futuramente
algumas destas passariam para o abuso e então, como fase final
um grupo menor de pessoas tornar-se-iam dependentes.
Como
conseqüência a droga ou o álcool pode levar alguém
a delinqüência, roubos, comportamentos estranhos, hábito
em mentir e muitas outras atitudes inadequadas? Sim, sem dúvida
são inúmeras as conseqüências negativas da dependência,
mas não significa que todos terão o destino da personagem
Mel, ou Regininha por exemplo. Como também,
o uso de determinada substância, pode simplesmente indicar uma fase.
Geralmente
a família costuma levar um tempo para perceber, ou admitir que
um filho esta usando drogas, e quando passa a conviver com o problema,
acaba sentindo raiva, culpa, vergonha, impotência, etc... Por isso
é extremamente importante e aconselhável, o responsável
procurar ajuda profissional. Por mais difícil que seja para um
pai, mãe ou esposa, aceitar que sozinhos tal desafio pode ser mais
impossível ainda, torna-se fundamental reconhecer as próprias
limitações. E, uma vez que isso aconteça, pode indicar
então, um bom começo. Digo começo porque de fato
não é a única solução os pais, ou esposa,
procurarem se tratar pelos dependentes. A dependência é uma
síndrome, o que significa sim ser doença, mas uma doença
que implica o usuário totalmente na cura desta. Depende, e muito,
daquele que está envolvido com qualquer que seja a substância.
Mas aqueles que convivem com dependente, e que estão sob ajuda,
também em tratamento, certamente criam melhores condições
de entenderem o problema, como passam a contribuir positivamente na recuperação
do usuário.
A
mídia vem apresentando muitas entrevistas, programas e pessoas
interessadas. Sem dúvida isso indica, mais uma vez, a repercussão
da novela global. No entanto não é de agora que os profissionais
de saúde vem trabalhando a respeito. Há muitos anos, organizações
e centros de referência vêm cuidando do tema com profundo
respeito e investindo em pesquisas e em tratamentos. A questão
é a qualidade do que tem sido oferecido.
Para
buscar um tratamento, tenha em mente que ele deve oferecer coisas a mais
do que apenas a abstinência da droga. Sabemos que aquele local de
tratamento que oferece a condição da pessoa voltar a se
socializar, que também se preocupa com os familiares, e que tem
apoio médico e de outros profissionais, indica poder ser um adequado
espaço de tratamento. Este, não tem que ser apenas a base
de internação, pode ser até mais eficaz quando é
realizado em ambulatórios, clínicas ou consultórios.
O
importante é pensar que o dependente, depende de ajuda. Ele não
entrou nessa sozinho. A própria dependência ou
uso de alguma droga pode indicar um pedido de socorro, um sintoma de algo
que já não estava bem. E por isso que ele vai precisar de
você. Mas lembre-se que a recuperação ocorre gradativamente,
da mesma forma que a dependência ocorreu.
Roberta
Payá
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